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Entrevista com o escritor calçadense

Pedro J. Nunes

 

FOLHA DO VALE: Como é que se iniciou a atividade do escritor, ou seja, como e por que você optou pela carreira?

PEDRO J. NUNES: Esta é uma questão que exigiria uma longa digressão, mas creio que possamos sintetizar pelo seguinte: nada mais natural que a enorme curiosidade que marcou minha infância redundasse no adulto observador. Este é um ponto importante na medida que, no geral, o escritor é um observador, atividade solitária da qual extrai sua matéria. Acrescente-se a isso que sempre tive um fascínio enorme pela leitura: as situações, as ideias, as palavras, tudo isso produzia em mim um encantamento. As palavras sempre tiveram sobre mim um domínio que transcendia o compreensível, o palpável. Quando descobria uma palavra cuja significação carregasse algo de contundente, de grandioso, de novo, tomava-a por vários dias, murmurava-a pelo prazer de ouvi-la, imaginava-a, escrevia-a, atitudes que, certamente, terão causado estranheza nas pessoas com quem convivia, e que devem ter criado situações curiosas e engraçadas, mas cujo desfecho é o que se vê. Escrever é juntar palavras que componham essa particularíssima compreensão do mundo tão peculiar a cada escritor.

 

FOLHA DO VALE: Quando se iniciou, efetivamente, sua carreira de escritor?

PEDRO J. NUNES: Aos vinte e cinco anos, com a publicação do conto "Sereia", no livro Jovens contos eróticos, da Editora Brasiliense.

 

FOLHA DO VALE: Sabemos que para publicar o conto nesse livro você participou de um concurso literário de âmbito nacional bastante concorrido. Fale-nos um pouco dessa experiência.

PEDRO J. NUNES: Foi uma experiência gratificante, sem dúvida alguma. Éramos vinte escritores eleitos entre dois mil concorrentes de todo o país. Cada escritor teve que concorrer com cem escritores cada um, e ser o melhor de cem é sem dúvida um fato grandioso, algo que assusta. O resultado é que, tendo saído o livro, comecei a insistir que poderia insistir na carreira, que meu trabalho tivera uma análise séria e que, nas condições em que venceu, tinha qualidade. Além disso, a Brasiliense fez um trabalho de marketing muito bom, e isso promoveu a imagem do escritor e, sem dúvida, abriu muitas portas.

 

FOLHA DO VALE: Você participou de outros concursos?

PEDRO J. NUNES: Sim, participei do concurso de romance da Fundação Ceciliano Abel de Almeida e recebi menção honrosa por Maria Trinta Cruzes, publicando recentemente com o título Aninhanha. Depois não participei mais.

 

FOLHA DO VALE: O concurso literário seria uma saída para o escritor inédito?

PEDRO J. NUNES: Uma das saídas. A principal seria escrever. Digo assim porque tem muita gente que ignora seus próprios limites e,tendo escrito algo,agrega-lhe outros e já acha que tem um livro a publicar. É preciso amargar o ofício, sofrer as palavras, buscá-las com método. Escrever não é fácil. Eu passei mais de dez anos escrevendo muito antes de apresentar um texto a alguém que pudesse julgá-lo.

 

FOLHA DO VALE: É natural que essa atividade, cuja remuneração praticamente inexiste, tenha que conviver com outras que garantam o sustento, etc. Além disso, há as obrigações sociais, familiares. Como é o exercício disso tudo?

PEDRO J. NUNES: É tudo uma questão de prioridade e método. Há quem passe a vida inteira à procura de tempo, contra o qual sempre existem queixas, ignorando uma atitude muito simples: disciplina. Abandonei muitas coisas para que pudesse me dedicar à literatura, à família e ao trabalho, coisas nas quais os conflitos, quando existem, são facilmente domesticados. E ainda me sobre tempo para dedicar-me às leituras, à música, ao cinema, às caminhadas, aos amigos, à praia, todas essas coisas imprescindíveis.

 

FOLHA DO VALE: Você gosta de esportes? Você falou em caminhadas.

PEDRO J. NUNES: Não, não gosto. Mas não abro mão de caminhar e pedalar.

 

FOLHA DO VALE: Como é sua relação com seu trabalho? Explico-me: com suas atribuições de funcionário público, de trabalhador comum?

PEDRO J. NUNES: Profissional, nunca afetiva. Todo o meu trabalho é norteado por um enorme senso de responsabilidade, coisa herdada, certamente, da educação paterna.

 

FOLHA DO VALE: Você trabalha na Academia de Polícia, uma instituição de ensino. Como é seu trabalho lá?

PEDRO J. NUNES: Isso não significa mudança de comportamento, sempre profissional. Não gosto de fazer coisas mal feitas, prefiro não fazer, e na Academia tenho tido liberdade para potencializar minha capacidade de trabalho. Além das atividades normais, de chefe do Núcleo de Documentação Geral, dou aulas de português e tenho tido uma empatia muito grande com meus alunos, que me são pessoas muito caras.

 

FOLHA DO VALE: Voltando à literatura, seu livro Vilarejo, segundo consta, foi muito bem recebido, e está esgotado. Existe alguma reedição em andamento?

PEDRO J. NUNES: Vilarejo, lançado como encarte da revista VOCÊ, foi um livro cuja receptividade pegou-me de susto. Aninhanha consumiu cinco anos de escritura, e me parecia um livro mais elaborado, mas acabou redundando numa experiência desastrada que não pretendo repetir. É um livro complicado, um texto que não se aproxima dos leitores tamanhas são as experimentações que contém. Vilarejo, que é sem dúvida um texto bem escrito, ensinou-me o caminho da simplicidade e, em razão de toda essa acolhida, posso considerá-lo um livro muito bom e, mais do que isso, um caminho a seguir na produção futura. Quanto à sua pergunta, há, sim, uma reedição em andamento, na qual eu e meus editores trabalhamos há algum tempo. Há o acréscimo de uma novidade: o livro agora virá completo, pois além de "Vilarejo", o livro é composto de mais quatro contos. Estou certo de que quem leu Vilarejo apreciará os trabalhos que lhe foram acrescentados. Será editado com o título Vilarejo e outras histórias, e deverá estar nas livrarias em setembro.

 

FOLHA DO VALE: Ainda existe Aninhanha no mercado?

PEDRO J. NUNES: Sim, Aninhanha pode ser encontrado em qualquer livraria.

 

FOLHA DO VALE: Você recebeu um prêmio literário de grande importância. O que ele significa para você?

PEDRO J. NUNES: Esta é uma questão terrível. O Prêmio Almeida Cousin, do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, foi concedido a mim por unanimidade, o que me põe sob uma responsabilidade enorme. É sobremaneira difícil encontrar as palavras que traduzam a alegria de recebê-lo e tudo que significa para mim, e me causou uma alegria muito grande.

 

FOLHA DO VALE: Uma pergunta inevitável: está escrevendo alguma coisa?

PEDRO J. NUNES: Bom, isto devia ser segredo. De qualquer maneira, posso adiantar-lhe que é um livro sobre a minha infância em São José do Calçado. Não é um livro autobiográfico, mas é inevitável que lá esteja o menino Pedro J. Nunes e sua visão do mundo sob a ótica da sexualidade, do humor e da observação daqueles elementos que compõem a vida de todo homem. Na verdade, e perdoe-me o neologismo, estou romancizando a infância, recriando-a, revendo-a. E isso está me causando um enorme prazer.

 

Entrevista concedida a Pedro Teixeira, escritor calçadense, editor do jornal A Folha do Vale, publicada em outubro de 1993.

 

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