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Contato com o leitor

O tempo que passou como escrivão de polícia valeu como inspiração. No caso de Vilarejo, novela de Pedro J. Nunes, os personagens vieram de outras paragens. De um interior qualquer, com costumes, ranços, grandezas e linguagem bem típicos. Vilarejo sai em forma de encarte do nº 4 da revistaVocê, publicada pela Universidade Federal do Espírito Santo. Vai ser lançada esta noite, às 19 horas, no Cineclube Metrópolis, na Ufes.

Pedro desmancha logo qualquer semelhança. “Li muito pouco Guimarães Rosa”, confessa. Admirador de Machado de Assis, Dostoievski, Autran Dourado e José J. Veiga, diz que é através das palavras que pensa em ser visto e ouvido. Ele é de São José do Calçado e trabalha em Vitória na Secretaria de Segurança Pública, onde coordena a Academia de Polícia.

Neste mundo “onde acontecem coisas horríveis em que a gente nem acredita”, tira forças para transformar a realidade. “O cotidiano de um funcionário público é muito triste. A gente fica um pouco insensível. Tanto às coisas tristes quanto às alegres. É uma forma de defesa”, reconhece Pedro.

Vilarejo vai estar nas bancas e Aninhanha, que de conto virou romance, sai breve editado pela UFES. Aninhanha foi escrito em trinta dias. Chamava-se Maria Trinta Cruzes, ocupava uma página e meia e já insinuava “os neologismos e perversões sintáticas” presentes na obra revisada. Tais “invenções, por não saber até quando funcionam, não pretendo repetir”, avisa Pedro Nunes.

Vilarejo toma rumo pouco comum aos escritos de autores capixabas. Vai ser adotado em escolas, como o Sacre-Coeur de Marie e o Darwin de Vila Velha, anuncia.

Pedro classifica como “interessante” a adoção. “O autor quando se dispõe a escrever gosta deste contato com leitores. É preciso ler. É preciso pensar. E a leitura é uma maneira eficaz de pensar”, diz.

Em 1987, Pedro foi um dos vinte nomes escolhidos em concurso promovido pela Editora Brasiliense. No livro Jovens contos eróticos, aparecia com Sereia. “Horrível”, reconhece. “Foi escrito em meia hora”, justifica-se. “Sério e bem trabalhado” é A ratazana e o ocaso, incluído no último Palavras da Cidade.

Em cenário de tão poucas publicações, como é o caso de Vitória, Você tem lugar? Joca Simonetti é otimista. “Uma coisa fundamental é falar com o leitor, ser entendido. Não adianta ser muito bonito e não ser compreendido”. Para ele, “o Brasil não desenvolveu uma boa linguagem no jornalismo científico. E a gente quer sanar esta falha, levando os pesquisadores a escreverem assim”.

Diferente dos jornais que circulam na capital, Você pretende ser “um espaço de reflexão”, nas palavras de Joca. “O tema dela não é o fato. Mas a reflexão”, frisa. Com três meses de vida, a revista tem mais de 300 assinantes. Vende em banca aproximadamente 60 exemplares. “Parece pequeno mas não é. Tem revista pornô vendendo menos que a gente. Levando em conta que o lançamento foi boca-a-boca, está até vendendo bem” (Pupa Gatti).


Publicado em A Gazeta em 15 de outubro de 1992.

 

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