
Não sou desses puristas intragáveis e acho que a língua deve estar a serviço de quem a usa, não o inverso. Quando a expressão é correta e precisa, basta. Se houver aí o acréscimo de alguma elegância de estilo, é puro deleite.
No entanto, devo confessar que certos modismos me batem desagradáveis, isso quando não aparentam escamotear imprecisão, má vontade, indiferença, falso pedantismo ou coisa que o valha.
Estava, dias atrás, procurando uma pequena peça plástica e fui a várias lojas sem nenhum êxito. Em cada uma delas ia me convencendo de que o que procurava nunca existira, a não ser a amostra quebrada que eu exibia a vendedores que só faziam me frustrar. Mas o pior estava por vir.
Num desses estabelecimentos, fui logo atendido por uma jovem muito solícita, a quem mostrei o tal pedaço de plástico e perguntei:
- Você teria esta peça?
Ela, muito burocrática, respondeu:
- Um momento, que eu vou estar verificando. E foi-se para o interior do loja, de onde voltou instantes depois. - Lamento, senhor, mas não vamos estar tendo essa peça.
Eu, já meio aterrado, perguntei-lhe:
- Você poderia indicar-me onde poderia consegui-la?
A moça me pediu a peça, aproximou-se de um senhor e sapecou-lhe:
- Você sabe onde esse senhor - e apontou para mim - poderia estar achando essa peça? - e travou com o tal senhor um diálogo mais ou menos inaudível. E finalmente, voltando-se para mim, arrematou: - O senhor pode estar procurando na loja X, mas eu não posso estar garantindo que o senhor vai estar encontrando. Se quiser estar fazendo uma tentativa...
Eu, mais que depressa, agradeci, peguei meu pobre caco de peça e disse-lhe, já meio convicto de estar na Inglaterra falando uma espécie de língua híbrida:
- Acho que vou estar desistindo.

