

A verdade é que histórias sobre desencontro amoroso vêm sendo matéria prima para romances ao longo dos tempos. De longos tempos. Por que, então, dedicar tempo e empenhar intelecto para contar mais uma história dessas? Talvez porque, mesmo sendo velha como o mundo, cada história de encontro/desencontro amoroso seja única na pena do escritor talentoso. Revezam-se nas páginas dos romances personagens tão diversas como diversa é a vida, salpicadas sempre tais personagens em variada medida de traços únicos, mal ou bem salientados pelo autor. Pessoas se envolvem e histórias se desenvolvem, e os caracteres explorados pelo romancista vão integrar um rol de tipos humanos em que não poucos leitores irão posteriormente se reconhecer. É assim que funciona a mágica de escrita/leitura.
Crônica do amor desperdiçado ou Inventário de umas tardes ou Ligeira coletânea de insultos ou Não tocarei teu nome inventaria um tipo específico: o professor que se apaixona pela aluna. Essa paixão, sim, acontece - para surpresa de ninguém -, mas tudo acontece de maneira especial porque a maneira como aconteceu nos foi contada por Pedro J. Nunes, que salienta na sua história os traços que lhe apetece salientar para bem nos contar a coisa toda. Não fosse Pedro J. Nunes o autor que é. E por isso tenha o leitor a certeza de que a heroína desta “Crônica” é feita diversa da musa inocente de Lolita, de Nabokov, ou daquela indiferente de Muito soneto por nada, de Reinaldo Santos Neves, ou da dominadora das Travessuras da menina má, de Vargas Llosa, ou daquela ambígua de Eva, de Germano Almeida. Arrisco-me mais a dizer (e cada qual melhor dirá por si) que aqui se tem amor desperdiçado porque ao final se vê meio-alcançado, ou não-alcançado-na-plenitude desejada pelo amante obcecado, o professor de Letras que, por sua vez, inventaria amores alheios como objeto de estudo. Em suma, um sentimental, à maneira lá dele (ou à maneira do autor?) E pronto.
Tudo somado, trata-se essa “Crônica” do registro de um desencontro - de intenções e de atuações - a desaguar num desengano. Tudo magistralmente contado por Pedro J. Nunes, que agora mais enriquece o seu já rico portfólio autoral com a maestria que todos (re)conhecemos.