
Sempre que vejo, ou imagino, uma determinada ilustração para Os contos de Canterbury, de Chaucer, minha imaginação se deixa levar a um aconchegante ambiente idealizado de leituras e histórias. Os mecanismos da mente são sutis. Eu fazia uma pesquisa de imagem na Internet quando a encontrei, e ela encaixou-se perfeitamente a essa agradável cena que momentos antes eu havia imaginado.
Se você pretende procurá-la, posso garantir que é preferível imaginá-la a vê-la na tela de seu dispositivo. Faça um esforço: num jardim sombreado, ao pé de uma escadaria, reúnem-se dois jovens e cinco moças. As jovens formam uma plateia atenta - apenas uma dela se distrai, colhendo uma pequenina flor -, ouvindo um jovem em pose de trovador, sobre o colo um alaúde. Outro moço, sentado um degrau acima deste, escuta atento.
Evocar essa imagem tão incomum à maioria dos cidadãos deste tempo precipitado pode parecer um contrassenso. Mas não é. As pessoas não sabem, mas elas apreciam muitíssimo as histórias: contá-las e ouvi-las é uma necessidade do espírito humano. Tanto assim é que os meios de comunicação investem pesadamente em séries, minisséries, teledramaturgia e filmes, todos eles contando histórias. E o consumo desses produtos só aumenta.
Contar e ouvir histórias reais ou de ficção é uma das mais antigas e importantes aquisições humanas. A humanidade não seria a mesma sem a histórias. Basta pensar em tudo que chegou até nós em matéria de mitos de todos os povos e lugares, mitos que ocuparão a necessidade humana do mágico e do etéreo durante o muito de futuro que ainda resta à história dos homens. Durante um bom tempo, e coloque-se bom tempo nisso, essas histórias míticas, imaginárias e heroicas, essas histórias das pessoas, seus símbolos e tragédias, foram transmitidas oralmente, em narrações feitas nas cavernas, à volta do fogo no deserto, sob as primitivas tendas da antiguidade, onde quer que algumas pessoas se reunissem ao redor de um hábil narrador.
Até que a humanidade inventasse a escrita, as narrativas atravessaram séculos sem conta antes de chegar a ter os primeiros registros em algum tipo de suporte, começando com pedras, placas de argila, papiro, pergaminho e o papel, até chegar aos suportes digitais mais diversos dos dias presentes. Não importa qual o meio, o fato é que eles permitiram que muitas delas atravessassem milênios, tornando parte da história imaterial de muita gente.
Esses fatos e imagens, além de eventos como clubes de livros, tertúlias, cafés literários, evocam rodas de leitura. Participei de alguns presenciais (nestes tempos modernos é preciso delimitar) na Biblioteca Pública do Espírito Santo (BPES) e sei, ou gostaria de saber, que acontecem por aí afora, seja nas bibliotecas, seja nas escolas ou, se Deus me for louvado, até em encontros entre amigos e familiares.
Nesse evento quinzenal, num ambiente acolhedor e fraterno, um leitor, chamado leitor-guia, fazia a leitura de um texto, normalmente um conto (não por acaso a mais antiga forma de narrativa que se conhece), oferecendo suas impressões ao mesmo tempo em que ouvia as que lhe ofereciam os ouvintes. Era curioso imaginar se os participantes saberiam que encontros como uma roda de leitura são um momento ancestral, um retorno a necessidades cravadas em nossos genes, em que não seria de todo impossível imaginar o crepitar do fogo ou o vento frio no alto da torre.
A roda de leitura era um instante de reencontro, um momento em que pessoas que às vezes nem se conheciam se confraternizavam ao mesmo tempo que se questionavam, imersos no prazer de descobrir o mundo dos conflitos, das dificuldades e das soluções. As rodas de leituras da BPES terminavam por ser, sobretudo, uma pausa, um oásis onde se refazer e se reorientar para o mundo caótico lá fora.

Eugênio Borgo Papai tinha esse livro, que li quando garoto. Infelizmente a edição era uma brochura de péssima qualidade, que ia se desfazendo com o manuseio e perdendo páginas. Aproveitei o que deu para ler.
Joel Salomão Fadlalah Não sei se estou certo, mas, na minha percepção singela, você, com seu belo texto, conseguiu ilustrar a “ilustração que retrata contadores de histórias”, pintando com suas palavras, o significado dos contadores de história ao longo do tempo.
Marilena Soneghet Pois pois. Eu me tornei cronista porque gosto de contar histórias. (E de ouvi-las). Quando criança, á noite, eu corria na vizinha. Ao pé da escada, num corredor escuro, buscava "histórias de medo"... sua "especialidade" - vampiros sobrevoavam nossos tremores, mulas sem cabeça pisoteavam temores, esqueletos assombravam, depois, os pesadelos. Num futuro, já passado, meus 5 filhotes eram minha plateia... Hora de dormir! Todos no tapete voador: camas, pijamas, travesseiros, abajur a meia luz... clima propício - o quarto povoava-se de ogros, lobos, princesas, pós mágicos... hoje, no inverno da vida, amanheço memórias... Ah. Como é "bão", você tem razão!
Rita de Cássia Maia e Silva Costa Sim, a literatura tem dessas coisas; faz-nos rememorar, fantasiar, e lançar alhures pequenos, invisíveis desejos de continuar a tecer essa rede de palavras e histórias.
Rosa Santos Imaginei agora uma roda de leitura com os meus pequenos. Obrigada pelo texto.
Ruy Perini Uma observação sobre o seu brilhante texto de hoje. Penso que os contos são mesmo os mais antigos relatos, fossem verídicos ou ficcionais, mas geralmente eram falados em forma poética, pois a rima torna o texto mais fácil de memorizar.
Teresinha Bichara Li seus textos, menino Pedro, e como sempre gostei muito. Mande mais pra gente.
Wanda Maria Alckimin Que viagem maravilhosa de resgate ao passado, dos costumes antigos que o seu texto nos levou, Pedro!! Dê vida a esses encontros, meu amado!! Eles precisam acontecer em uma roda de leitura que pode ser textual ou em volta a uma tela de arte, e com ela iríamos descrever, viajar como você tão bem nos provoca aqui e agora com o seu texto. Pedro, sempre quis fazer isto com as acadêmicas. Defendi na minha monografia “A poesia nas artes performáticas”. Acredito que a escrita seja a aliança, o elo de ouro com as artes visuais, pois elas juntas nos levam a estar no passado, também podem nos trazer ao presente, e ainda podem nos levar ao futuro. Só vai depender da nossa escolha. Este seu texto necessita tomar VIDA e isto se faz URGENTE!! Dará um salvo-conduto às nossas vidas que estão sendo arrastadas ao calabouço que o sistema nos quer induzir. Eu acredito que a escrita, e as artes em geral podem ser o bilhete de salvação para entrarmos nesta NAVE e vivenciarmos o Novo que você nos apresenta e nos guia no seu texto. Eu quero!! Vamos chamar quem comunga desta ideia também. Vamos????
