
O portal Praça Clóvis, lançado pela UnB em 2025 para mapear a literatura brasileira, ignorou, em sua primeira leva, a produção literária capixaba. Parece estranho, mas talvez nós próprios, por modéstia, acanhamento ou um generalizado complexo vira-lata, sejamos os responsáveis por essa abstenção. Afinal, não é incomum haver certa descrença quanto à nossa literatura entre nós, sendo muito empregado o rótulo “literatura periférica” para circunscrevê-la.
O sentimento é antigo.
Oitenta anos atrás, em 1945, Newton Braga, capixaba de Cachoeiro de Itapemirim, escrevia: “Com os respectivos perigos de qualquer generalização, a afirmação que se impõe, numa conversa sobre literatura espírito-santense do momento é esta, de certo dura: acontece que não há.”
Para definir a nossa pequenez, a expressão “poeta municipal” de Drummond chegou a ser adotada por dois de nossos maiores escritores, Renato Pacheco e Reinaldo Santos Neves, para ironizar nosso entranhado acanhamento.
Diante dessa aparente descrença em nós mesmos, cabe perguntar: há ou não há, afinal, literatura capixaba?
Com o perdão de Newton Braga, acontece que há. Desde os jesuítas, e passando por Manoel de Andrade de Figueiredo, Marcelino Duarte, Azambuja Susano, Maria Antonieta Tatagiba, Narciso Araújo, Graciano Neves, até chegar aos grandes nomes dos dias atuais. Sem falar que vários escritores capixabas de todas as épocas romperam a fronteira do Espírito Santo e se tornaram conhecidos no restante do país.
Aqui, coube à UFES - Universidade Federal do Espírito Santo - dar o primeiro grande impulso à produção literária do Espírito Santo. Na década de 1980, a Fundação Ceciliano Abel de Almeida, com a Coleção Letras Capixabas, e, na década de 1990, a Secretaria de Produção e Difusão Cultural da universidade, com a coleção A Cultura na UFES, revelaram e consolidaram grandes nomes das nossas letras. Publicações da Prefeitura Municipal de Vitória e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo também devem ser lembradas. Sem falar naqueles escritores que publicaram - e ainda publicam - seus livros por conta própria ou sob o patrocínio de leis de incentivo à cultura, até chegar ao surgimento na atualidade de diversas editoras.
Reafirme-se então: há literatura no Espírito Santo. Embora coexista com sérios problemas acerca de toda essa produção, a literatura produzida no Espírito Santo não fica a dever à que é feita no restante do país.
Escritores capixabas já não têm obstáculos à publicação de seus livros. Apesar disso, um problema crônico persiste: a distribuição de toda essa produção. E nesse ponto, as pouquíssimas editoras existentes enfrentam as mesmas dificuldades que as dos autores que publicam seus livros por conta própria. Aparentemente, os livros são vendidos apenas na noite de autógrafos. Depois caem no esquecimento. A maior parte deles.
Felizmente, começa a nascer aqui a reedição de vários clássicos capixabas, seja por instituições como a Academia Espírito-santense de Letras, seja por editoras comerciais, que começam a perceber o filão que esses livros representam.
Nunca se escreveu tanto no Espírito Santo. E nunca se produziu tanto livro. Infelizmente, com relação a essa fartura, surge um primeiro e grave problema, a absorção, pelos leitores, de toda essa produção. É impossível haver público suficiente para tantos livros. O segundo problema, e não menos grave, diz respeito à visibilidade dessa volumosa produção. Alguns sites, perfis na rede social e programas de rádio e TV felizmente têm contribuído para a disseminação do livro capixaba, mas ainda é pouco para atrair a atenção do leitor.
Enfim, livro de escritor capixaba acaba se tornando um item raro, quase um talismã. Então pode parecer que não existam aqui bons autores e seus livros. Mas as obras produzidas no nosso estado resistem, e ocupam razoável espaço na vida dos leitores capixabas. Então... a literatura capixaba existe. Só não vê - ou só não lê - quem não quer.

Juca Magalhães O problema maior, na minha humilde opinião, é: existem leitores? Seja para autores de qualquer natureza? Vejo a literatura restrita a grupo de pessoas, fala-se de livros, mas tenho a impressão que, cada vez mais, lê-se menos...
Marcela Neves Eu acho que literatura há. Acontece que não há leitores. Os capixabas são muito autocentrados, reservados, ensimesmados. No entanto, quando se trata de literatura (ou arte em geral), preferem olhar para fora, o que causa essa aparente ausência de literatura capixaba.
Marilena Soneghet Bergman Existe literatura... existem talentos literários... inexiste o marketing...