
Quando tive em minhas mãos o livro Artes e ofícios de curar no Brasil, organizado por, entre outros, Sidney Chalhoub e Gabriela dos Reis Sampaio e publicado pela Editora Unicamp, ele já ele chegou furando fila, colocando-se à frente de livros que estava lendo ou planejando ler.
Primeiro porque, já pelo título o livro me pareceu uma dessas relíquias das leituras da vida cotidiana. Tendo-o em mãos, encontrei a ponta do filão no texto da orelha da professora Maria Clementina Pereira Cunha: “[o livro] atesta a riqueza e a densidade da interpretação de fenômenos ligados aos temas da saúde na perspectiva de uma história social da cultura. Aqui, paradigmas científicos são postos a dialogar com contextos históricos e estão sempre confrontados com a experiência de quem andava atrás de solução para seus males.” Pronto, tinha já o suficiente para que se confirmasse a crença de que tinha em minhas mãos um bom volume de história do cotidiano, doido para ser lido.
Esse volume de título irresistível - por isso o comprei, pela mesma razão o abri e comecei a ler - proporcionou várias semanas de leitura prazerosa. Li-o sem pressa, na demanda dos prazeres que lê-lo me causou. Doze artigos com temas sobre doenças e curas no Brasil nos séculos passados, escritos por historiadores especialmente selecionados, passam pelas mazelas da mente e do corpo com o propósito de colocar a questão de como se sentiam as autoridades, os cientistas e a população em geral diante dos males que não poupam ninguém. Há, claro, referência aos inevitáveis marcos históricos, dentre os quais citaria o surgimento da primeira escola de medicina do Brasil, a Faculdade de Medicina da Bahia, criada por Dom João VI menos de um mês de sua chegada nestas terras. Mas o grosso do volume são os relatos sobre a reação popular às imposições da ciência, seja enfrentando-a, seja resistindo a abrir mão das tradicionais formas de cura. Sem falar nas histórias reais de curandeiros e suas práticas de cura inimagináveis.
Embora cada página confirmasse o valor desse livro, no penúltimo ensaio, cujo tema é a epidemia de cólera no Recife oitocentista, surgiu - e aqui advirto que isso possa ser bastante passional da minha parte – o que para mim é o arremate perfeito do volume: “Sabemos que todo discurso sobre a doença é uma construção, mesmo o discurso médico, que se pretende fundamentar nos registros dos dados. ‘Objetividade’ e ‘subjetividade’, ‘realidade’ e ‘ficção’ na representação da doença não são, assim, polos antinômicos. Não há compreensão ‘cientificamente neutra’, isenta de representação, assim como uma representação nunca é integralmente fictícia.” É o que sugere o professor paraibano Ariosvaldo da Silva Diniz, colocando mais uma pulga entre as que a leitura já nos fizera acumular atrás da orelha.
Segundo porque, tirante os mergulhos sempre prazerosos nos temas da micro-história, e não são poucos os que esse livro proporciona, aliei à leitura minha simpatia pela medicina popular e artimanhas curativas. Desde que me entendo por gente fui, e desde que me entenda por gente sou e serei, adepto das mezinhas, dos unguentos, dos emplastros, das beberagens, das infusões e das garrafadas, e ponho fácil meu pé no terreiro das benzedeiras se um achaquezinho me desconsola. É um aprendizado de família. Nas andanças com meu pai, quanta vez não o vi passar a mão em arbustos e sair comendo. Numas era erva-de-santa-maria, ou mastruz, erva de cheiro nauseabundo, mas eficaz contra lombrigas, noutras era o macaé, para males do estômago. Meu pai sabia. Assim como sabia que deitar-se na terra virgem das matas era bom para seus achaques da coluna. Na infância, a qualquer mal de febre renitente, já me via sendo levado por meus pais para ter varridas as mazelas a raminhos de guiné ou arruda nas mãos da benzedeira. Lá em casa, mais valia a fé que a Cibalena, e mais valia a Cibalena se com fé fizesse trato. Por isso, e nisso valham-me meus pais e meus antepassados, tenho meus raizeiros de confiança na Vila Rubim, e a flora medicinal não me tem falhado, assim como não falham os benefícios do alto vindos das mãos amorosas das tantas benzedeiras por cujas benzeduras passei ao longo da vida.
A crença na medicina popular vai longe, e entra em todas as casas se das casas pode expurgar o mal. Olhe o caso do ecologista e naturalista capixaba Augusto Ruschi que, envenenado por um sapo e tratado sem sucesso pelos médicos, não teve outro recurso senão recorrer à medicina popular, submetendo-se a rituais de purificação para expurgo do veneno, e, entre outras terapêuticas, banhos de ervas. Tinha o cientista tanta fé na medicina popular que a defendia contra quem a rotulasse curandeirismo. Parece que as providências surtiram efeito, pois embora Augusto Ruschi tenha falecido alguns meses após o tratamento, de cirrose foi que morreu. Segundo consta, traços do veneno do sapo não foram encontrados em seu corpo.
De fato, a expressão “mal não faz”, pronunciada por médico menos radical em relação a alguma tisana, parece ainda o eco longínquo da convivência da medicina tradicional com curandeiros, feiticeiros, raizeiros, benzedores, barbeiros, parteiras, sangradores e boticários. Embora ao longo da história da medicina no Brasil os médicos tenham lutado para fazer prevalecer o monopólio de seus conhecimentos sobre as práticas populares, não são poucos, mesmo nos dias de hoje, os casos de concessões feitas às práticas de cura alternativa.
Vou dar um exemplo com que encerro este falatório.
Não faz muito tempo, em minhas andanças pela Vila Rubim, encontrei um casal de médicos conhecidos. Cumprimentei-os num comércio de grãos, cereais e afins, donde seguiram eles, donde segui eu. Depois de minhas deambulações pelo comércio do lugar, a última providência seria passar pelo meu raizeiro antes de ir embora. Uma surpresa me aguardava. Tão logo me aproximei, reconheci no interior da loja o casal de médicos, compravam ervas e raízes para os mais diversos males. Afastei-me para não constrangê-los. Enquanto caminhava dei de imaginar o quanto esse fato não pudesse estar alinhado com minha expectativa de que há espaço para todas as práticas, desde que possam consolar-nos de nossas mazelas ou ser eficazes contra os males que nos afligem, venham de onde vierem.
